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Reflexões de um dia cinzento

Publicado: 29/11/2016 por andreperagine27 em Início

Por André Peragine

Peço licença. Hoje não vou conseguir escrever o que havia planejado.

Ontem fui dormir idealizando o que eu ia escrever hoje. Claro, ia falar a respeito da decisão do título da Fórmula 1, assim como falei da NASCAR na semana passada. Acordei de manhã em meio a uma forte chuva, não tinha luz e saí de casa correndo, não queria chegar atrasado. De fato, acabei chegando adiantado e praticamente seco. Chegando no trabalho, me deparei com o carinha do ar condicionado. Me cumprimentou sorrindo como sempre, mas não tão bem humorado. Me perguntou: “Viu o avião da Chapecoense?”. Achei que se tratava de alguma piada pelo título do Palmeiras no domingo. “Não, o que houve?” respondi. “Caiu de madrugada!”. Meio sem entender, perguntei se era sério e se tinha morrido alguém. “Não sei, fiquei sabendo agora, parece que resgataram gente com vida”. Então, abri o Google Chrome. Infelizmente.

A partir desse momento, o que eu ia escrever já não tinha mais importância. Aliás, o dia começou a passar mecanicamente, de notícia em notícia (que aliás, ficavam mais tristes a cada minuto). Confesso que não acompanho futebol, e hoje fiquei conhecendo a bela história deste grande pequeno time. Era composto por gente guerreira e apaixonada. Jovens como eu, cheio de objetivos e sonhos, que postavam seus bons momentos nas redes sociais, que conquistaram o coração dos torcedores de diversos times.

E ontem voaram para seu sonho mais alto, a decisão mais importante. A alegria no rosto dos rapazes, acompanhados por jornalistas contagiados pela sua alegria. Mas assim como meu dia e meu post tomaram outro rumo, seus sonhos se perderam em um voo sem volta. Nosso dia acabou se tornando um dia de reflexões, lembramos de tudo aquilo de que esquecemos todos os dias. Nos lembramos de nos comover, percebemos nossa vulnerabilidade, de que os sonhos podem ser interrompidos sem breve aviso.

Nós não gostamos do momento em que nos damos conta de que não somos grande coisa. Talvez por isso fiquemos buscando grandes coisas, deixando as pequenas e realmente importantes de lado. Nos perdemos em telas de LCD, de smartphones e tablets sem nos darmos conta de que o dia está ensolarado, do quanto a comida está saborosa, do quão prazeroso pode ser chegar em casa e fazermos um bom café.

Os garotos da Chapecoense nos mostraram o quão valoroso é lutar por um sonho sem um salário milionário. Simplesmente pelo prazer de ver o sorriso nos rostos dos torcedores, subiram prometendo ir em busca de um sonho. Sonho que foi interrompido sem aviso, risos que se transformaram em lágrimas. Aqueles garotos simples e sonhadores que em uma terça feira comoveram o mundo.

Não há palavras que possam tornar este momento mais fácil e menos doloroso. Hoje a torcida se transformou em uma só, todos compartilhamos de uma mesma dor, todos nos transformamos em apenas um esporte. Que os familiares daqueles que se foram (jogadores, corpo técnico, jornalistas) possam receber nosso apoio e nossos sentimentos, e que saibam que aqueles que se foram serão para nós eternos campeões. O que fica na memória é aquele último lance, aquele momento que nos mostra o que é a grandeza do esporte, e mais do que isso, a grandeza daqueles garotos.sudamericanaweb_0

#SomostodosChape

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Sete Vezes Jimmie

Publicado: 21/11/2016 por andreperagine27 em Início

21subnascar-master768“O número SETE é sagrado, perfeito e poderoso”, afirmou Pitágoras. Inúmeras religiões também o definem dessa forma. No esporte a motor, é raro um momento onde alguém consiga alcançar a perfeição dos 7 triunfos. Claro, há exceções. Giacomo Agostini, por exemplo, foi campeão da Moto GP por 7 vezes consecutivas entre 1966 e 1972, chegando ao oitavo triunfo em 1975. Sebastien Loeb triturou a concorrência por 9 vezes no WRC de 2004 a 2012. Mas chegar aos 7 é simplesmente a consagração, o certificado de grandeza, o carimbo de mestre em qualquer esporte que seja.

Na era moderna do esporte a motor, nas últimas duas décadas (talvez uns dois anos a mais que isso), tivemos o privilégio de acompanhar não um, mas 3 heptacampeões: Michael Schumacher, em 2004 (aos 35 anos), Valentino Rossi em 2009 (aos 30) e ontem, 20 de novembro de 2016, Jimmie Johnson (aos 41 anos). Mas se Michael Schumacher possui conquistadas contestadas (seja por atitudes antidesportivas ou ordens de equipe) e Valentino Rossi esteja há alguns anos passando por um hiato, J.J. parece ter remado contra a corrente nos últimos 10 anos para igualar o feito histórico de Richard “The King” Petty e Dale “The Intimidator” Earnhardt.

Convenhamos que qualquer um que ganhe um título já tem seu nome na história. Após 6, então, não dá para se contestar. Mas 7, aos 41 anos e com uma chuva de críticas como a qual J.J. foi submetido nessa temporada, não é algo que facilite na busca de adjetivos. Ainda mais no dia da decisão, depois de largar na quadragésima posição, escapar de acidentes e acertar nas estratégias.

O fato é que Jimmie não pode ser contestado em sua grandeza. Longe das polêmicas comuns ao esporte motorizado, o californiano é capaz de jogar xadrez a mais de 300 km/h. Se recupera de problemas e acidentes fazendo parecer fácil. Dá um show de frieza e concentração, pilota com um alicate no lugar de uma alavanca de câmbio quebrada (em tempos de câmbio borboleta), come um cheeseburger durante uma bandeira amarela e de repente é líder quando todos o consideram carta fora do baralho.

É claro que pilotar na NASCAR permite a um piloto ser muito mais automobilista do que em outras categorias, mas de nenhuma maneira isso torna o trabalho mais fácil. Escapar de paybacks, da fúria alheia ou de erros dos pilotos mais lentos é um desafio à parte, ainda mais quando se tenta espremer 40 carros em uma pista com 800 metros de comprimento. Não é fácil, definitivamente. Que o diga Kimi Räikkonen, único da era contemporânea a experimentar às duas categorias…

E foi superando a tudo isso que JJ se tornou hepta. Aos 41 anos, sem polêmicas, sem ordens de equipe, ultrapassando, a duas voltas do final, um piloto 17 anos mais jovem e com um carro mais equilibrado, sem um toque se quer. Virando o jogo a menos de 10 voltas, dando uma aula em Carl Edwards. Como diria outro hepta, Jimmie não venceu ontem porque foi o mais rápido. Venceu porque se recusou a perder.

Por André Peragine

Felipe e nossa pequenez

Publicado: 14/11/2016 por andreperagine27 em Início

felipeDessa vez, não peço licença. Nem perdão pela falta de educação. Essas palavras me martelaram a noite toda, também não prometo ser breve. E se quer saber, pouco me importa sua opinião. Afinal de contas, quem é você, que liga a TV ao final do Globo Rural para acompanhar uma categoria à qual considera a mais importante do automobilismo sem acompanhar nem conhecer às outras (aliás, nem a história dessa mesma)? Nessa manhã de segunda, dedico essa crônica à você.

São 32 anos acompanhando o automobilismo. Muitas vezes do sofá, algumas pelo rádio, mas as mais inesquecíveis de perto. Não da arquibancada. De dentro dos boxes mesmo. Dos postos de sinalização. Às vezes, de quadriculada na mão. Seja ao vivo ou não, vi muita coisa, o suficiente para me causar arrepios.

Me lembro de um tempo em que era mais fácil se atualizar das últimas informações de espionagem da CIA do que acompanhar algumas categorias, mesmo pela TV. Foi bem nessa época que um mito que cavalgava um Monte Carlo negro com o número 3 venceu a Daytona 500. Um cara duro, intimidador, de verdade. Ninguém nega que ele tenha sido polêmico, o que o faz odiado por muitos até hoje, mesmo 15 anos após sua morte. Contudo, isso não impediu que ao chegar aos boxes, após a vitória que esperou por 20 anos, todos os mecânicos da NASCAR fizessem uma fila para cumprimenta-lo.

Fórmula 1 sempre foi mais fácil de se acompanhar. O difícil era interpretar alguns fatos diante de notícias tendenciosas e orgulho ferido. Se acha que estou falando bobagem, leia qualquer edição da finada revista “Grid” publicada em 1989, talvez você entenda o que quero dizer. Mas talvez você também seja limitado, e concorde com aquelas reportagens.

Mas é inegável o quanto o orgulho ferido que foi alimentado nesses anos levou nosso automobilismo a um buraco sem fundo. Na segunda metade da última década, parecia que esse orgulho cicatrizaria. Naquele GP do Brasil de 2008 voltaríamos a ser os melhores. Nenhum de nós estava sentado naquela Ferrari, mas ele representava muitos de nós, como àqueles que sonhavam em uma dia chegar perto de uma Ferrari, ou àqueles que simplesmente estavam na frente da TV porque tinha um brasileiro na frente. E o resultado foi catastrófico.

Como pôde o nosso Paladino falhar tão feio? Como ele pôde desapontar a mídia especializada, que contava com seu sucesso para vender jornais? Agora teriam que criticar a organização da prova da Indy em SP, as equipes de sinalização, fomentar as fofocas dos bastidores, enaltecerem um piloto espanhol que nunca conseguiu mostrar um talento igual ao que tinha quando era gerido por Flávio Briatore. O vice de 2008? Brasileiro só aceita o título se for de campeão, como disse certa vez alguém que jogou o adversário para fora da pista em Suzuka. Mas era vingança, isso não era feio.

Mesmo depois de 2008, tivemos boas conquistas, Duas Indy 500, NASCAR Whelen Series na categoria sênior, mundial de Fórmula E. Mas caramba, aquele mundial de 2008, que mancada! Aquela categoria é que interessa, o Galvão diz que é a mais importante e difícil do mundo, então eu concordo!

Eis que uma hora cansa. É chegada a hora de parar. Quem sabe um pódio no Brasil na despedida. Para variar, choveu muito em Interlagos. A curva do Café (onde vi morrerem 2, um deles ao vivo), fez suas vítimas. Felipe foi uma delas. “Bem feito”, disseram alguns. Afinal, ele ficou em dívida conosco. Aí evidenciou-se nossa pequenez. No caminho dos boxes, subindo a pé e com nossa bandeira (será que merecíamos realmente esse gesto?), os mecânicos fazem como aqueles que cumprimentaram Earnhardt em sua vitória, e formando fila, reverenciam-no em um gesto o qual seríamos incapazes de repetir em toda nossa ignorância. De pé, o aplaudem e cumprimentam. Talvez, naquele momento, alguns tenham percebido a dimensão de Felipe na Fórmula 1. Foi o momento dele. O respeito conquistado diante de um título o qual não conquistou. Depois disso me pergunto: Ele precisava?

Naquele momento me veio outra memória. Diante de uma arquibancada lotada, uma bandeira enorme e TV’s ligadas, também a bordo de uma Williams, mas alguns metros antes, Ayrton Senna roda sua Williams na curva da junção. Ninguém sabia, mas seria seu último momento em Interlagos na Fórmula 1. Ele bateria também em Aida, o que geraria comentários negativos por parte da imprensa e da torcida. Menos de 2 meses depois, seria imortalizado em nossos corações após o acidente de Ímola.

Felipe Massa não fracassou na Fórmula1. Esteve longe disso. Saiu pela porta da frente, quando ainda tinha opções em aberto. Seus colegas lamentaram, sua equipe também. Foi um dos maiores vencedores da história da Ferrari, o último a levar um título (o de construtores) para Maranello. Tentou melhorar nosso automobilismo de base, graças à ele chegamos a viver um lampejo de esperança. Felipe foi longe, muito longe. Ainda vai queimar lenha, seja na Fórmula E, no WEC ou no DTM. Uma pena que não sejamos como aqueles que realmente vivenciam e entendem a Fórmula 1, e não sejamos capazes de aplaudi-lo de pé.

Por André Peragine

A Lei da compensação

Publicado: 03/08/2016 por andreperagine27 em Início

abre-lado-a-ladoQuando Jacques Villeneuve conquistou o mundial de 1997, muitos creditaram o título ao carro. Foram inevitáveis as comparações com seu pai. Mas dois fatos são incontestáveis. O primeiro é de que Jacques superou o peso de ser filho de uma lenda. O segundo, é de que apesar de tudo, muitos consideraram seu título como uma honra e justiça ao sobrenome Villeneuve, a conquista que havia faltado ao seu pai. E tudo isso após a conquista das 500 milhas de Indianapolis e o título da Indy Car. Desde então, ninguém repetiu o feito, e isso, ninguém irá tirar do canadense, ou de sua família. É a lei da compensação.

Nico Rosberg vive uma situação oposta. Nico é filho de Keke Rosberg, que foi campeão em 1982, justamente o ano em que morreu Gilles. E a morte de Gilles está diretamente ligada ao campeonato de Keke. Assim como o acidente que encerrou a carreira de Didier Pironi está diretamente ligado ao título de Keke. Naquele ano, a Brabham (de Nelson Piquet) resolveu abrir mão do título para desenvolver o motor BMW, que seria o motor do futuro. Esse fato também está diretamente ligado ao título de Keke Rosberg. Que venceu o campeonato com apenas 5 pontos de vantagem sobre Didier Pironi, que ficou ausente das últimas 5 corridas.

Nico Rosberg abriu o campeonato de 2016 com 4 vitórias em sequencia. Sequencia que acabou após uma malsucedida fechada em Lewis Hamilton no GP da Espanha. Desde então, somente uma vitória em Baku e mais uma malsucedida na Áustria, onde perdeu a corrida a poucas curvas do fim (Sim, na Áustria, o palco da melhor apresentação de seu pai no ano do titulo, onde quase venceu na última volta). Fechada que, aliás, parece ter acabado com a confiança de Nico, que após um início espetacular deixou Hamilton se isolar na ponta da tabela com 19 pontos de vantagem. Vantagem consolidada na casa de Nico.

No Q3 em Hockeinheim, parecia que Nico finalmente reagiria. Era sua casa. Casa de seu time. Nico fez a pole. Tem o melhor carro do Grid.  Não existe hierarquia entre os pilotos. Tudo estava perfeito, não fosse o fato de Nico estacionar seu carro na largada, permitindo não só a ultrapassagem de Hamilton como também dos pilotos da Red Bull. Não sobrou nem um pódio para Rosberg, e ao que parece, sobrará, no máximo, um vice.

Rosberg não é um piloto inferior somente a Hamilton. Rosberg era o cara que após o Q3 em Abu Dhabi 2014 precisava de Felipe Massa entre ele e Hamilton, e o que conseguiu foi Massa entre Hamilton e ele. Rosberg deu a ilusória impressão de ser rápido ao superar o genial companheiro Michael Schumacher após seu retorno da aposentadoria, assim como deu a falsa impressão de ser acima da média ao conquistar a GP2 em 2005. Nico é apenas mais um piloto.

O fato é que mesmo Nico sendo um piloto ruim, não é pior do que seu pai foi. Conquistou em 2016 a quantidade de vitórias que seu pai conquistou durante uma carreira inteira. Nico não tomou, por exemplo, uma surra igual à que seu pai ganhou do companheiro na temporada de 1986. Ao menos na tabela, Nico tem conseguido ser o melhor do resto, embora esteja sofrendo as ameaças de Max Verstappen, talvez seu pior pesadelo desde que o jovem holandês foi promovido ao time da Red Bull. Em vista disso, vemos que a Fórmula 1 está previsível não por Hamilton simplesmente ser bom, mas sim porque Rosberg é ruim. Se tiver a sorte de seu pai, talvez seja campeão. Do contrário, não. Mas um título na família já está mais do que merecido. É a Lei da compensação.

Por André Peragine

Os 20 anos da Rio 400 (parte 2)

Publicado: 17/03/2016 por andreperagine27 em Início

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Em 1996 a Indy iniciou a temporada com um golpe. Pela primeira vez, a corrida mais importante (que aliás, dava o nome à categoria, a Indy 500) estaria fora do calendário. À CART, que organizava a categoria, isso significa uma pressa maior em mudar a proposta da categoria, o que significava também acelerar o processo de internacionalização. E nada melhor do que aproveitar a fase que a categoria vivia no Brasil e o desejo do Rio de voltar a ter um grande evento internacional para acelerar o processo. E assim, foi anunciada no calendário a Rio 400, a ser disputada no dia 17 de março. No embalo do sucesso do ano anterior, o SBT investiu pesado em publicidade e cobertura. Entre outras novidades, a então tradicional revista “Grid” ganhou uma versão especial: Grid Indy SBT. O efeito de tudo isso foi uma grande expectativa para a estreia da corrida por aqui.

Oito brasileiros estavam anunciados para a corrida: Emerson Fittipaldi, Raul Boesel, Roberto Moreno, Maurício Gugelmin, Marco Grecco, Christian Fittipaldi, André Ribeiro e Gil de Ferran. Vale lembrar que os dois últimos tinham terminado a temporada anterior em alta, vencendo os GP’s de Loudon e Laguna Seca. Além disso, Giel tivera uma grande corrida duas semanas antes, na estreia do oval de Homestead, com um grande segundo lugar. Não havia como não ter expectativas para a corrida do Rio.

E foi em um clima muito parecido com o que a F1 deixava na década de 80 que a Rio 400 foi realizada. No sábado, as arquibancadas lotadas viram uma belíssima disputa pela pole entre André Ribeiro e os pilotos da Chip Ganassi. Não deu, André acabou largando atrás dos carros vermelhos. Mas isso não era demérito, afinal a Tasman não era um time de primeira linha. Era claro que se quisesse vencer, André teria que lançar mão de algo mais do que o equipamento.

A largada ocorreu debaixo de céu nublado, contudo sem diminuir o brilho da festa.  As disputas foram boas, e André até pulou para o segundo posto, sem conseguir, contudo, mantê-lo por muito tempo. Mesmo assim, o brasileiro conseguiu manter-se entre os líderes durante maior parte da prova. Na volta 11, um susto: Mark Blundell bate forte na curva 4 e quebra o pé. O acidente impressionou pela força, e por pouco ele não “colheu” o companheiro Maurício Gugelmin. Voltas depois, Ribeiro se mantinha no top 3, enquanto alguns dos outros brasileiros tinham problemas. Emerson Fittipaldi e Gil quase abandonaram, mas conseguiram voltar, embora duas voltas atrás. Gugelmin acabou abandonando com problemas na suspensão.

Faltando 20 voltas, Greg Moore liderava com André em segundo. Duas voltas depois, Greg abandona com problemas na suspensão. A torcida levantou. André tinha então uma liderança folgada, até que vem uma amarela. Faltando 9 voltas, Robby Gordon acerta o muro. A vantagem para Al Jr. é praticamente neutralizada. E a 4 voltas do final, a bandeira verde é agitada.

Foram 4 longas voltas. A característica tensão de um brasileiro liderando em casa trouxe a mesma sensação de 10 anos antes, com a dobradinha Piquet/Senna no mesmo autódromo. Ou de 5 anos antes, na primeira vitória de Senna em Interlagos, que se repetiu em 1993. A tensão na voz de Teo José aumentava a expectativa. Volta 132, bandeira branca. André lidera seguido de Al Unser Jr. Volta 133. Bandeira quadriculada. A torcida explode. Nos boxes, a família de André  se abraça e chora. Podíamos soltar o grito da garganta. O mesmo grito que ficou preso quando Senna rodou na subida da junção dois anos antes.images

No carro, André chora e vibra, quase que sem acreditar. O garoto que tantos sacrifícios fizera para poder estar lá, levantava a torcida em casa logo na sua estreia em corridas no Brasil. Era a coroação e a recompensa por tudo o que passara ao longo da carreira. O talento (somado a um pouco de sorte), superara as dificuldades. Agora ele era herói nacional, estamparia a capa de jornais e revistas, seria entrevistado em diversos programas, gravaria diversos comerciais. Ele confessa que por dias não conseguiu dormir, tamanho era o êxtase. Ele admite que foi o ponto mais alto de sua carreira. Eu vejo como um dos mais emocionantes do automobilismo brasileiro. E para completar a alegria, 7 dos oito brasileiros pontuaram na prova: Christian Fittipaldi em quinto, Raul Boesel em sétimo, Roberto Moreno em nono, Gil de Ferran em décimo, Emerson Fittipaldi em décimo primeiro e Marco Greco em décimo segundo.

Depois da vitória de André, muita coisa aconteceu, e muita coisa deixou de acontecer. A corrida no Rio foi disputada até 2000, e nunca um brasileiro voltou a vencer. Há alguns anos, o autódromo do Rio foi totalmente demolido, para tristeza dos entusiastas e fãs. A CART foi decaindo até se unir com a IRL em 2008. Após isso, a Indy voltou aqui 4 vezes, em um circuito de rua no Anhembi. Nenhum brasileiro venceu. Depois da Rio 400 de 1996, somente duas vitórias brasileiras aconteceram em território nacional, com Felipe Massa vencendo os GP’s do Brasil de 2006 e 2008. André Ribeiro deixou a Indy em 1998, após uma frustrante passagem pela equipe Penske, que construiu um carro abaixo das expectativas. Dois anos depois a equipe desistiria de ter chassi próprio, o que levou o time a vencer os campeonatos de 2000 e 2001 com o brasileiro Gil de Ferran.

Vinte anos depois, ainda me emociono ao ver as imagens daquela corrida. Alguns meses depois, eu ganharia uma foto autografada de André, que guardo com muito carinho junto com outras relíquias relacionadas ao automobilismo. André nunca foi campeão na Indy, mas a emoção daquela corrida é mais lembrada do que muitos campeonatos conquistados por outros pilotos. E espero que ainda seja lembrada daqui 20 anos.

por André Peragine

 

Os 20 anos da Rio 400 (parte 1)

Publicado: 08/03/2016 por andreperagine27 em Início

No meio da década de 90 (no GP de Mônaco de 1994, para ser mais exato), a torcida brasileira que acompanhava o automobilismo passou a enfrentar uma espécie de ressaca. Era a primeira vez em quase 24 anos em que não alinhávamos um piloto vencedor de ao menos 1 GP em um evento de Fórmula 1. Não que faltasse esperança no talento de Rubens Barrichello, pelo contrário. O garoto tinha futuro, porém, ainda lhe faltavam equipamento e maturidade. Mas parece que se no Velho Mundo a impressão é de que viveríamos um jejum (e de fato este durou 6 anos, quebrado justamente por Barrichello apenas em 2000), na América do Norte tudo mantinha-se muito bem, obrigado, como estivera desde que Emerson Fittipaldi aportara por lá.

Mas é fato também que mesmo após duas Indy 500 e um título de Emmo, a Indy nunca tivera uma cobertura à altura por aqui. A categoria pulava de canal em canal, e além disso tinha a fama de receber dois tipos de pilotos: Os aposentados da F1 e os que não tinham dado certo por lá. E foi justamente no clima de ressaca brasileira na F1 e sucesso nos USA que o SBT resolveu apostar alto na categoria, que até então contava com 4 brasileiros: Emerson Fittipaldi, Raul Boesel, Maurício Gugelmin (todos Ex-F1) e Marco Greco, que após correr no motociclismo, correu na extinta Fórmula 3000 e acabou chegando à Indy em 1993. Para 1995, se juntariam mais 3 brazucas: Christian Fittipaldi (vindo direto da F1 depois de sofrer em equipes fracas), Gil de Ferran (que nunca recebera sua merecida chance na Europa) e André Ribeiro, único baseado nos USA, onde levou o vice campeonato da Indy Lights em 94.08-17-Honda-And-Ribeiro-Wins-NewHampshire1995-Std

E foi no dia 5 de março de 1995 que pela primeira vez o SBT transmitiu uma prova da Indy, o Grand Prix de Miami. E foi meio que, pegos de surpresa, vimos uma bela vitória de Jacques Villeneuve, com uma grande apresentação de Maurício Gugelmin levando a segunda posição.  Era assim que se iniciava uma nova era no automobilismo brasileiro.

Feliz com a surpreendente audiência, o SBT passou a investir fortemente em publicidade. Programas especiais, coberturas nos principais telejornais, reportagens especiais, bons repórteres “in loco” mostrando detalhes da categoria durante as corridas, os pilotos como convidados nos principais programas da emissora e flashes dos bastidores nos finais de semana de corrida. Muito parecida com a cobertura que vinha sido feita na F1 até então. E para ajudar, os brasileiros vinham alcançando bons resultados, dando uma audiência maior do que a F1 no Brasil. Aliás, no Brasil, somente no GP de Montreal da F1 que a categoria bateu a Indy em audiência, por ocasião do segundo lugar de Rubens Barrichello.

E se na F1 o ponto alto foi o segundo lugar de Rubinho, na Indy pudemos contar com diversos pódios, fora 3 grandes momentos: A última vitória de Emmo na categoria (em Nazareth), a belíssima primeira vitória de André Ribeiro em Loudon e o Gran Finale do campeonato, com a primeira vitória de Gil de Ferran, ao lado de Maurício Gugelmim no pódio de Laguna Seca. Gi, aliás, ficou muito perto de vencer em Cleveland, quando foi tirado da pista pelo atrapalhado retardatário Scott Pruett.

Mesmo com o melhor representante brasileiro tendo ficado apenas com o décimo lugar na tabela, o sucesso entre a torcida e os bons números de audiência fizeram com que a CART (organizadora da então Indy Car) começasse a olhar mais para o Brasil. Com planos de se internacionalizar, a categoria tinha a firme ideia de vir para cá, algo que Emerson vinha tentando há anos. E foi justamente em 1995 que o autódromo de Jacarepaguá passava por uma reforma, visando entrar novamente no calendário internacional. E foi com o apoio do então prefeito Cesar Maia e do empresário Jorge Cintra que o sonho começou a tomar forma, com a construção de um circuito oval com um desenho bem peculiar. E o que aconteceu depois, falaremos no próximo post.

 

Por André Peragine

A última volta

Publicado: 19/11/2015 por andreperagine27 em Início

Me sinto parte de uma geração meio privilegiada. Sim, nem com tanta sorte e nem com tanto azar. Se por um lado perdi as proezas de Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve e Jackie Stewart, pude ver ao menos um título de Niki Lauda, ver Piquet, Mansell, Prost e Senna em seus melhores momentos na Fórmula 1, ver Emerson, Mario Andretti e Mansell (em um belo repeteco na Indy) e mesmo que remotamente, bons lances de Richard Petty e Dale Earnhardt na NASCAR, em uma época onde não era tarefa fácil acompanhar a categoria aqui no Brasil. Mas os grandes nomes, estes sempre apareceram por vez ou outra nas publicações nacionais. E foi no início da década de 90 que um garoto roubou a cena na principal categoria norte americana e destronou o “Intimidator”. Tratava-se de Jeff Gordon, a bordo do carro 24 colorido e estampado com o logo da Dupont.

Gordon

Para quem viveu a era do Play Station, era normal pegar o CD com o jogo da NASCAR e ver o carro de Gordon estampado na capa. E não era para menos. Jeff foi o primeiro cara a peitar e vencer a velha geração. Sua estréia coincidiu com a aposentadoria de Richard “The King” Petty, e destronou Dale Sr. por algo muito mais do que simples coincidência. Jeff chegou com talento e audácia suficientes para causarem uma verdadeira revolução em uma categoria até então dominada por velhos pilotos, como Ricky Rudd, Rusty Wallace e outros grandes nomes. E foi com essa audácia que se tornou um deles.

Mas um dia chega a hora de parar. E antes do início da temporada, Jeff anunciou que era chegada essa hora. No próximo domingo, milhões de pessoas ao redor do do mundo (incluindo eu e você) poderão (ou melhor, poderemos) acompanhar o último capítulo dessa grande carreira em uma corrida histórica. Jeff entrará na pista não como um competidor a mais, mas sim como um dos quatro que irá disputar o título. É o que chamamos de “se aposentar por cima”, “saber a hora de parar”, o que é muito raro em um atleta de seu naipe. Gordon vencendo ou não, irá nos dar a oportunidade de dizermos, daqui a alguns anos, que assistimos ao cara que disputou um título até a última corrida de sua carreira.

Poderíamos ter visto o mesmo com Michael Schumacher, se este não tivesse sucumbido ao vício de acelerar e não tivesse voltado para 3 temporadas medianas na Mercedes. Ou se Dale Earnhardt não tivesse protagonizado a tragédia na abertura da temporada de 2001, na qual prometia disputar com afinco. Ou até mesmo poderíamos ter visto com tantos outros atletas, se estes tivessem sido sábios o suficiente para não deixarem seu ego suprimir o talento.

Como grande fã de automobilismo, tenho uma sugestão. Mesmo que hoje você não curta muito a NASCAR, ou não ligue para corridas americanas, procure não perder a corrida domingo. Você tem a rara chance (ou melhor, o privilégio) de ver uma lenda se retirando em grande estilo. E daqui uns anos, tenho a plena certeza de que você baterá no peito e dirá com todo o prazer que viu um dos grandes caras do automobilismo disputar um título até sua última apresentação. E quiçá, alcançar o objetivo. E o nome desse cara é Jeff Gordon.

Por André Peragine