Felipe e nossa pequenez

Publicado: 14/11/2016 por andreperagine27 em Início

felipeDessa vez, não peço licença. Nem perdão pela falta de educação. Essas palavras me martelaram a noite toda, também não prometo ser breve. E se quer saber, pouco me importa sua opinião. Afinal de contas, quem é você, que liga a TV ao final do Globo Rural para acompanhar uma categoria à qual considera a mais importante do automobilismo sem acompanhar nem conhecer às outras (aliás, nem a história dessa mesma)? Nessa manhã de segunda, dedico essa crônica à você.

São 32 anos acompanhando o automobilismo. Muitas vezes do sofá, algumas pelo rádio, mas as mais inesquecíveis de perto. Não da arquibancada. De dentro dos boxes mesmo. Dos postos de sinalização. Às vezes, de quadriculada na mão. Seja ao vivo ou não, vi muita coisa, o suficiente para me causar arrepios.

Me lembro de um tempo em que era mais fácil se atualizar das últimas informações de espionagem da CIA do que acompanhar algumas categorias, mesmo pela TV. Foi bem nessa época que um mito que cavalgava um Monte Carlo negro com o número 3 venceu a Daytona 500. Um cara duro, intimidador, de verdade. Ninguém nega que ele tenha sido polêmico, o que o faz odiado por muitos até hoje, mesmo 15 anos após sua morte. Contudo, isso não impediu que ao chegar aos boxes, após a vitória que esperou por 20 anos, todos os mecânicos da NASCAR fizessem uma fila para cumprimenta-lo.

Fórmula 1 sempre foi mais fácil de se acompanhar. O difícil era interpretar alguns fatos diante de notícias tendenciosas e orgulho ferido. Se acha que estou falando bobagem, leia qualquer edição da finada revista “Grid” publicada em 1989, talvez você entenda o que quero dizer. Mas talvez você também seja limitado, e concorde com aquelas reportagens.

Mas é inegável o quanto o orgulho ferido que foi alimentado nesses anos levou nosso automobilismo a um buraco sem fundo. Na segunda metade da última década, parecia que esse orgulho cicatrizaria. Naquele GP do Brasil de 2008 voltaríamos a ser os melhores. Nenhum de nós estava sentado naquela Ferrari, mas ele representava muitos de nós, como àqueles que sonhavam em uma dia chegar perto de uma Ferrari, ou àqueles que simplesmente estavam na frente da TV porque tinha um brasileiro na frente. E o resultado foi catastrófico.

Como pôde o nosso Paladino falhar tão feio? Como ele pôde desapontar a mídia especializada, que contava com seu sucesso para vender jornais? Agora teriam que criticar a organização da prova da Indy em SP, as equipes de sinalização, fomentar as fofocas dos bastidores, enaltecerem um piloto espanhol que nunca conseguiu mostrar um talento igual ao que tinha quando era gerido por Flávio Briatore. O vice de 2008? Brasileiro só aceita o título se for de campeão, como disse certa vez alguém que jogou o adversário para fora da pista em Suzuka. Mas era vingança, isso não era feio.

Mesmo depois de 2008, tivemos boas conquistas, Duas Indy 500, NASCAR Whelen Series na categoria sênior, mundial de Fórmula E. Mas caramba, aquele mundial de 2008, que mancada! Aquela categoria é que interessa, o Galvão diz que é a mais importante e difícil do mundo, então eu concordo!

Eis que uma hora cansa. É chegada a hora de parar. Quem sabe um pódio no Brasil na despedida. Para variar, choveu muito em Interlagos. A curva do Café (onde vi morrerem 2, um deles ao vivo), fez suas vítimas. Felipe foi uma delas. “Bem feito”, disseram alguns. Afinal, ele ficou em dívida conosco. Aí evidenciou-se nossa pequenez. No caminho dos boxes, subindo a pé e com nossa bandeira (será que merecíamos realmente esse gesto?), os mecânicos fazem como aqueles que cumprimentaram Earnhardt em sua vitória, e formando fila, reverenciam-no em um gesto o qual seríamos incapazes de repetir em toda nossa ignorância. De pé, o aplaudem e cumprimentam. Talvez, naquele momento, alguns tenham percebido a dimensão de Felipe na Fórmula 1. Foi o momento dele. O respeito conquistado diante de um título o qual não conquistou. Depois disso me pergunto: Ele precisava?

Naquele momento me veio outra memória. Diante de uma arquibancada lotada, uma bandeira enorme e TV’s ligadas, também a bordo de uma Williams, mas alguns metros antes, Ayrton Senna roda sua Williams na curva da junção. Ninguém sabia, mas seria seu último momento em Interlagos na Fórmula 1. Ele bateria também em Aida, o que geraria comentários negativos por parte da imprensa e da torcida. Menos de 2 meses depois, seria imortalizado em nossos corações após o acidente de Ímola.

Felipe Massa não fracassou na Fórmula1. Esteve longe disso. Saiu pela porta da frente, quando ainda tinha opções em aberto. Seus colegas lamentaram, sua equipe também. Foi um dos maiores vencedores da história da Ferrari, o último a levar um título (o de construtores) para Maranello. Tentou melhorar nosso automobilismo de base, graças à ele chegamos a viver um lampejo de esperança. Felipe foi longe, muito longe. Ainda vai queimar lenha, seja na Fórmula E, no WEC ou no DTM. Uma pena que não sejamos como aqueles que realmente vivenciam e entendem a Fórmula 1, e não sejamos capazes de aplaudi-lo de pé.

Por André Peragine

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