Os 20 anos da Rio 400 (parte 2)

Publicado: 17/03/2016 por andreperagine27 em Início

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Em 1996 a Indy iniciou a temporada com um golpe. Pela primeira vez, a corrida mais importante (que aliás, dava o nome à categoria, a Indy 500) estaria fora do calendário. À CART, que organizava a categoria, isso significa uma pressa maior em mudar a proposta da categoria, o que significava também acelerar o processo de internacionalização. E nada melhor do que aproveitar a fase que a categoria vivia no Brasil e o desejo do Rio de voltar a ter um grande evento internacional para acelerar o processo. E assim, foi anunciada no calendário a Rio 400, a ser disputada no dia 17 de março. No embalo do sucesso do ano anterior, o SBT investiu pesado em publicidade e cobertura. Entre outras novidades, a então tradicional revista “Grid” ganhou uma versão especial: Grid Indy SBT. O efeito de tudo isso foi uma grande expectativa para a estreia da corrida por aqui.

Oito brasileiros estavam anunciados para a corrida: Emerson Fittipaldi, Raul Boesel, Roberto Moreno, Maurício Gugelmin, Marco Grecco, Christian Fittipaldi, André Ribeiro e Gil de Ferran. Vale lembrar que os dois últimos tinham terminado a temporada anterior em alta, vencendo os GP’s de Loudon e Laguna Seca. Além disso, Giel tivera uma grande corrida duas semanas antes, na estreia do oval de Homestead, com um grande segundo lugar. Não havia como não ter expectativas para a corrida do Rio.

E foi em um clima muito parecido com o que a F1 deixava na década de 80 que a Rio 400 foi realizada. No sábado, as arquibancadas lotadas viram uma belíssima disputa pela pole entre André Ribeiro e os pilotos da Chip Ganassi. Não deu, André acabou largando atrás dos carros vermelhos. Mas isso não era demérito, afinal a Tasman não era um time de primeira linha. Era claro que se quisesse vencer, André teria que lançar mão de algo mais do que o equipamento.

A largada ocorreu debaixo de céu nublado, contudo sem diminuir o brilho da festa.  As disputas foram boas, e André até pulou para o segundo posto, sem conseguir, contudo, mantê-lo por muito tempo. Mesmo assim, o brasileiro conseguiu manter-se entre os líderes durante maior parte da prova. Na volta 11, um susto: Mark Blundell bate forte na curva 4 e quebra o pé. O acidente impressionou pela força, e por pouco ele não “colheu” o companheiro Maurício Gugelmin. Voltas depois, Ribeiro se mantinha no top 3, enquanto alguns dos outros brasileiros tinham problemas. Emerson Fittipaldi e Gil quase abandonaram, mas conseguiram voltar, embora duas voltas atrás. Gugelmin acabou abandonando com problemas na suspensão.

Faltando 20 voltas, Greg Moore liderava com André em segundo. Duas voltas depois, Greg abandona com problemas na suspensão. A torcida levantou. André tinha então uma liderança folgada, até que vem uma amarela. Faltando 9 voltas, Robby Gordon acerta o muro. A vantagem para Al Jr. é praticamente neutralizada. E a 4 voltas do final, a bandeira verde é agitada.

Foram 4 longas voltas. A característica tensão de um brasileiro liderando em casa trouxe a mesma sensação de 10 anos antes, com a dobradinha Piquet/Senna no mesmo autódromo. Ou de 5 anos antes, na primeira vitória de Senna em Interlagos, que se repetiu em 1993. A tensão na voz de Teo José aumentava a expectativa. Volta 132, bandeira branca. André lidera seguido de Al Unser Jr. Volta 133. Bandeira quadriculada. A torcida explode. Nos boxes, a família de André  se abraça e chora. Podíamos soltar o grito da garganta. O mesmo grito que ficou preso quando Senna rodou na subida da junção dois anos antes.images

No carro, André chora e vibra, quase que sem acreditar. O garoto que tantos sacrifícios fizera para poder estar lá, levantava a torcida em casa logo na sua estreia em corridas no Brasil. Era a coroação e a recompensa por tudo o que passara ao longo da carreira. O talento (somado a um pouco de sorte), superara as dificuldades. Agora ele era herói nacional, estamparia a capa de jornais e revistas, seria entrevistado em diversos programas, gravaria diversos comerciais. Ele confessa que por dias não conseguiu dormir, tamanho era o êxtase. Ele admite que foi o ponto mais alto de sua carreira. Eu vejo como um dos mais emocionantes do automobilismo brasileiro. E para completar a alegria, 7 dos oito brasileiros pontuaram na prova: Christian Fittipaldi em quinto, Raul Boesel em sétimo, Roberto Moreno em nono, Gil de Ferran em décimo, Emerson Fittipaldi em décimo primeiro e Marco Greco em décimo segundo.

Depois da vitória de André, muita coisa aconteceu, e muita coisa deixou de acontecer. A corrida no Rio foi disputada até 2000, e nunca um brasileiro voltou a vencer. Há alguns anos, o autódromo do Rio foi totalmente demolido, para tristeza dos entusiastas e fãs. A CART foi decaindo até se unir com a IRL em 2008. Após isso, a Indy voltou aqui 4 vezes, em um circuito de rua no Anhembi. Nenhum brasileiro venceu. Depois da Rio 400 de 1996, somente duas vitórias brasileiras aconteceram em território nacional, com Felipe Massa vencendo os GP’s do Brasil de 2006 e 2008. André Ribeiro deixou a Indy em 1998, após uma frustrante passagem pela equipe Penske, que construiu um carro abaixo das expectativas. Dois anos depois a equipe desistiria de ter chassi próprio, o que levou o time a vencer os campeonatos de 2000 e 2001 com o brasileiro Gil de Ferran.

Vinte anos depois, ainda me emociono ao ver as imagens daquela corrida. Alguns meses depois, eu ganharia uma foto autografada de André, que guardo com muito carinho junto com outras relíquias relacionadas ao automobilismo. André nunca foi campeão na Indy, mas a emoção daquela corrida é mais lembrada do que muitos campeonatos conquistados por outros pilotos. E espero que ainda seja lembrada daqui 20 anos.

por André Peragine

 

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